Publicado por: bulimundo | Julho 25, 2009

Tão pobres que nós somos…..jornal i de 18 de Julho…Crónica de Martim Avillez..

Há uma sensação de que as classes médias podem engrossar as fileiras dos mais pobres se a crise se mantiver. Sucede que as classes médias em Portugal são pobres.
Existe uma discussão séria sobre a possibilidade de uma fatia da classe média portuguesa poder precipitar-se pelos degraus da escada social abaixo – isto porque a crise lhe dará esse terrível empurrão. Se somarmos esta possibilidade ao facto de hoje 18% dos portugueses viverem com menos de 400 euros por mês, percebe-se o que está em causa. Isso mesmo: que país é preciso construir para inverter este empobrecimento galopante.

Primeiro, porém, convém perceber de que pessoas é hoje feito o país. Números absolutos, já se sabe, não existem. Portugal tem esta inquietante mania de não se medir e quantificar, pelo que os números são sempre duvidosos. Ainda assim, é possível traduzir deste modo (não científico, mas seguindo os escalões de rendimento definidos pelo fisco nacional) os 10 milhões que somos: 2 milhões vivem com pouco mais de 400 euros por mês. São os muito pobres, no extremo do mapa social – cerca de 700 mil famílias. Do outro lado estão cerca de 500 mil portugueses que vivem com mais de 60 mil euros por ano – ou seja, 180 mil famílias. São os ricos. Sobram 100 mil (37 mil famílias) que vivem acima disso: os muito ricos, com mais de 150 mil euros por ano. Ou seja, pobres, ricos e muito ricos são menos de 1/3 da população.

Sucede que em Portugal os ricos (como se percebe fazendo as contas) têm rendimentos mensais que não ultrapassam os 5000 euros brutos mensais – qualquer coisa como 3000 euros líquidos todos os meses. Não cada um – a família.

Com dois filhos na escola privada são 700 euros. Um empréstimo da casa (com juros baixos) cerca de 600 euros. Despesas correntes, como água e TV Cabo, uns 170 euros mensais. Um carro soma 300 euros mês. E nas despesas de alimentação é difícil uma família de 4 gastar menos de 800 euros mensais. Pois: sobram menos de 500 euros por mês, e ainda falta roupa, férias, médicos.

Antes de respirar, veja-se então o que assusta os economistas: as classes médias. De acordo com esta divisão, são cerca de 2 milhões de famílias. Dessas, 1,6 milhões ganha entre 10 mil e 27 mil euros anuais. Ou seja, os seus vencimentos médios mensais (uns 1600 euros) não chegam para pagar sequer as despesas fixas básicas dos chamados ricos – portanto está- -lhes vedada a educação privada, a compra de um carro, a compra de uma casa média? Ou então endividam-se.

O que isto quer dizer é que a classe média portuguesa é muito pobre. E que os chamados ricos são aquilo que no resto da Europa é considerada a classe média. Todos eles dependem do emprego – e mesmo com emprego passam a vida a contar os tostões ou a trabalhar para pagar dívidas de férias baratas em Punta Cana. Dito de outro modo: o empobrecimento nacional significa que 3,5 milhões de famílias portuguesas vivem à beira do precipício social. O mais terrível é que é deles que depende a economia – porque se não gastarem, como pedia ontem Vítor Constâncio, a retoma não avança.

Este seria o retrato de Portugal – mesmo que a crise tivesse terminado ontem


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