
O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.
(…) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.
Miguel de Unamuno, in ‘Solidão’











COMO EU QUERIA ESTAR SÓ
Queria estar só de uma forma verdadeiramente insólita, nova. Ao contrário do que vocês pensam, isto é, sem mim e justamente com um estranho à minha volta.
Parece-vos já um sinal de loucura?
Talvez por não terem reflectido bem.
Não nego que a loucura pudesse já estar em mim; mas peço-vos que acreditem que esta é a única maneira de se estar verdadeiramente só.
A solidão já não está com vocês; está sempre sem vocês e só é possível com um estranho à vossa volta: lugar ou pessoa que seja, que vos ignoram totalmente, que vocês ignoram totalmente, de maneira que a vossa vontade, o vosso sentimento fiquem suspensos e perdidos numa incerteza angustiante e, cessando toda a afirmação de vocês próprios, cesse a própria intimidade da vossa consciência. A verdadeira solidão está nesse lugar que vive por si e que para vocês não tem rosto nem voz, e por isso nesse lugar vocês são o estranho.
Era assim que eu queria estar só. Sem mim. Sem aquele eu que eu já conhecia, ou julgava conhecer. Só com um certo estranho, do qual já sentia obscuramente não poder libertar-me e que era eu próprio: o estranho dentro de mim.
Nessa altura, avistava apenas um! E já esse, ou a necessidade que eu sentia de ficar a sós com ele, de o colocar na minha frente para o conhecer bem e conversar um pouco com ele, me perturbava muito, provocando em mim uma sensação de horror e de medo.
Se para os outros eu não era aquele que até então pensava ser, quem era eu afinal?
Luigi Pirandello, ” Um, Ninguém e Cem Mil”.
By: simplesmente on Julho 27, 2012
at 2:46 pm