Publicado por: bulimundo | Julho 31, 2012

A Fronteira entre a Juventude e a Velhice….A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros…

 

 

Creio que se pode traçar uma fronteira muito precisa entre a juventude e a velhice. A juventude acaba quando termina o egoísmo, a velhice começa com a vida para os outros. Ou seja: os jovens têm muito prazer e muita dor com as suas vidas, porque eles a vivem só para eles. Por isso todos os desejos e quedas são importantes, todas as alegrias e dores são vividas plenamente, e alguns, quando não vêem os seus desejos cumpridos, desperdiçam toda uma vida. Isso é a juventude. Mas para a maior parte das pessoas vem o tempo em que tudo se modifica, em que vivem mais para os outros, não por virtude, mas porque é assim. A maior parte constitui família. Pensa-se menos em nós próprios e nos nossos desejos quando se tem filhos. Outros perdem o egoísmo num escritório, na política, na arte ou na ciência. A juventude quer brincar, os adultos trabalhar.

 Não há quem se case para ter filhos, mas quando chegam, modificamo-nos, e acabamos por perceber que tudo aconteceu por eles. Da mesma forma, a juventude gosta de falar na morte, mas nunca pensa nela; com os velhos acontece o contrário. Os jovens acreditam ser eternos e centram todos os desejos e pensamentos sobre si próprios. Os velhos já perceberam que o fim vai chegar e que tudo o que se tem e se faz para si próprio acaba por cair num buraco e de nada valeu. Para isso necessita de uma outra eternidade e de acreditar que não trabalhou apenas para os vermes. Por isso existe a mulher e os filhos, o negócio ou o escritório e a pátria, para que se tenha a noção de que o esforço diário e as calamidades têm um sentido. 

Assim, uma pessoa é mais feliz quando vive para mais alguém, e não para si só. Mas os velhos não devem fazer disso um heroísmo, que não é. Do mais irrequieto jovem resulta o melhor dos velhos, o que não é verdade para aqueles que já na escola agiam como velhos… 

Hermann Hesse, in “Gertrud

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Responses

  1. Só reconheço validade a este teu modo de apresentar as coisas na medida em que também eu acredito que não tens qualquer culpa deste nosso estranhamento. Mas também eu sou completamente inocente. Se te pudesse levar a aceitar isto, seria possível, não digo uma nova luz- para isso somos os dois demasiado velhos-, mas uma espécie de pacificação, não o fim das hostilidades, mas uma atenuação das tuas constantes acusações.

    Naturalmente que não sou capaz de descrever hoje de forma imediata os teus métodos educativos nos meus primeiros anos, mas consigo imaginá-los a partir de fases mais tardias e do modo como tratas o Félix. E a isto há que acrescentar a circunstância agravante de seres mais novo naquela altura, mais desperto, mais enérgico, mais espontâneo e ainda mais indiferente do que hoje, completamente absorvido pela loja; mal te punha a vista em cima, no máximo uma vez por dia, e por isso me causavas uma impressão ainda mais profunda, que nunca chegou a transformar-se em convívio habitual.

    Com isso, o mundo apresentava-se-me dividido em três partes: uma primeira onde eu, o escravo, vivia submetido a leis que só tinham sido inventadas para mim e que eu, sem saber porquê, nunca poderia cumprir à risca; depois, um segundo mundo, infinitamente distante do meu, o mundo em que tu vivias a comandar, a dar ordens e a irritares-te porque não te obedeciam; e finalmente um terceiro mundo, o das outras pessoas, que viviam felizes e livres de ordens e de obediência.

    Franz Kafka, ” Carta ao Pai”


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