Publicado por: bulimundo | Novembro 20, 2012

O Jornalista Salva-se Recorrendo ao Exagero..NEM MAIS….

 

 

 

O jornal é, de certo modo, o teatro histórico ao domícílio, obrigado a fornecer em cada número a ração de terrível e ridículo necessária para conciliar a digestão ou o sono dos seres aos quais nunca acontece nada. Por conseguinte, o jornalista tem de recorrer continuamente ao exagero, mas sobretudo à hipérbole e, se for caso disso, à invenção. Compete-lhe vencer, à força de fantasia e literatura amplificadoras, a espantosa uniformidade da vida humana. Todos os dias, desde milénios, sucedem uns tantos assassínios, suicídios, roubos e incêndios – os nomes dos protagonistas e lugares mudam, porém as causas e formas são sempre, eternamente, quotidianamente, as mesmas.O jornalista salva-se recorrendo ao exagero. Sob a sua pena, tudo assume um aspecto trágico ou satírico. Todo o terramoto que faça ruir duas casas é um cataclismo de que não há memória outro igual, uma rixa entre bêbados uma «luta na via pública», uma manifestação de mendigos «uma revolta», a assinatura de um tratado «uma data histórica», um orogotango amestrado «um milagre da ciência». Todo o aviador que fractura a coluna vertebral é um «herói da mais elevada estirpe», todo o transbordo de rios a «segunda edição do Dilúvio», toda a prostituta que mata ou se mata a protagonista de um «novo drama de amor».
Os homens, na sua maioria sádicos, querem que o jornal lhes satisfaça o sadismo íntimo, pelo que tem de localizar, de país para país, todo o abrutalhado e malévolo que existe e apresentá-lo ainda mais bruto e mau. Se há uma mulher de permeio, ou é possível fingir que há, junta ao bruto um pouco do porco: o famoso binómio romântico – amor e morte – traduz-se facilmente em sangue e esperma.

Giovanni Papini, in ‘Relatório Sobre os Homens’

 

 


Responses

  1. “Maldito seja o primeiro escritor que permitiu a um jornalista reproduzir livremente as suas palavras! Abriu um processo que só poderá conduzir ao desaparecimento do escritor: aquele que é responsável por cada uma das suas palavras! Infelizmente, a entrevista tal como é normalmente praticada não tem nada a ver com um diálogo: 1) o entrevistador faz-nos perguntas interessantes para ele, sem interesse para nós; 2) das nossas respostas, só utiliza as que lhe convêm; 3) tradu-las para o seu vocabulário, para a sua maneira de pensar. Por imitação do jornalista americano nem sequer se dignará dar-nos a aprovar o que nos pôs a dizer. A entrevista é publicada. Consolamo-nos: daqui a nada esquecem-na! Qual o quê: Será citada! Mesmo os universitários mais escrupulosos já não distinguem entre as palavras que um escritor escreveu e assinou e as suas palavras relatadas. Há algum tempo decidi: acabaram-se as entrevistas para sempre. Excepto os diálogos, co-redigidos por mim, acompanhados pelo meu copyright, qualquer palavra minha relatada deve ser considerada, a partir dessa data, como falsa.”

    Milan Kundera


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