Publicado por: bulimundo | Junho 13, 2013

Os Expectantes…..

 

Entre as definições da ilha planetária em que nos encontramos desterrados, uma das mais apropriadas seria: uma grande sala de espera. Uma terça parte da vida é anulada numa semimorte, outra gasta em fazer mal a nós mesmos e aos outros e a última esboroa-se e consome-se na expectativa. Esperamos sempre alguma coisa ou alguém – que vem ou não, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata. Começa-se, em criança, a esperar a juventude com impaciência quase alucinada; depois, quando adolescente, espera-se a independência, a fortuna ou porventura apenas um emprego e uma esposa. Os filhos esperam a morte dos pais, os enfermos a cura, os soldados a passagem à disponibilidade, os professores as férias, os universitários a formatura, as raparigas um marido, os velhos o fim. Quem entrar numa prisão verificará que todos os reclusos contam os dias que os separam da liberdade; numa escola, numa fábrica ou num escritório, só encontrará criaturas que esperam, contando as horas, o momento da saída e da fuga. E em toda a parte – nos parques públicos, nos cafés, nas salas – há o homem que espera uma mulher ou a mulher que espera um homem. Exames, concursos, noivados, lotarias, seminários, operações da Bolsa – são formas e causas de expectativa.(…) Todos, com diferentes paixões, esperam – sobretudo, as fortunas repentinas, as mudanças imprevistas, o insólito e, com frequência, o impossível. A imaginação trabalha, a fantasia floresce, a paciência suporta, a visão beatífica da hora de contemplação preenche as longas horas da vigília. Quando acontece ou se alcança o esperado, abrem-se todas as comportas da alegria. Mas por pouco tempo, pois a meta não é tão atraente como parecia de longe, ao longo do caminho – toda a vitória, no dia imediato, tem o mesmo sabor da derrota.
Ou então surge demasiado tarde, quando o espírito se modificou e já não dispõe de forças para saborear o bem esperado durante tanto tempo; a mulher perfeita que se oferece, finalmente, quando o jovem ardente se tornou um velho saciado, árido ou flácido. Todo o seu amor se consumou debaixo das janelas, no frio das noites infinitas – quando é lançada a escada, as pernas e os braços não obedecem ou o inflamado partiu.
Mas a desilusão, em vez de conduzir à renúnica, incita a novas expectativas. (…) E toda a vida do homem, apesar de todos os adiamentos e paragens, não passa de um esperar a vida, a bela vida, a verdadeira, a nossa. Todo o presente e o possuído afigura-se-nos apenas um adiantamento para a nossa fome ou um mau prefácio de um livro maravilhoso. E, enquanto esperamos a vida, esquecemo-nos de viver ou vivemos sem economia e prudência, não pensando em destilar dos minutos de hoje, única propriedade certa, todo o sabor e substância.

Giovanni Papin


Responses

  1. «as raparigas um marido». Tirando este sintagma, o texto está perfeito. Também vejo a vida essencialmente como espera. É um “à espera de Godot”. E ele, como se sabe, não aparece.

  2. CONCORDO..AINDA PENSEI EM TIRAR ESSA PARTE MAS PREFERI PÔR O TEXTO TODO JÁ QUE NO SEU TODO É MUITO BOM…ABRAÇO…..

  3. En attendant Godot

    Carpe Diem ( o poema completo de Horácio )

    Em Latim:

    Carpe diem quam minimum credula postero.

    Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi finem di dederint.

    Leuconoe, nec Babylonios
    temptaris numeros.

    Ut melius, quidquid erit, pati.

    Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam, quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare.

    Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida.

    Aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

    “Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.

    Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você,

    Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.

    É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho.

    Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar.

    Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.

    Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.

    Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.”

    Lendo o magnífico excerto, salta-nos o pensamento para a peça que mihranda evoca: “En attendant Godot” de Samuel Beckett.

    Mas a conclusão conduz-nos até Horácio…!

  4. Desculpem.

    Não eliminei o primeiro título: “En attendant Godot”.


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