Entender o fenómeno do nacional-socialismo através das experiências vitais de doze destacadas personagens do regime de Hitler é o objectivo do livro ‘Os Homens do Führer’ do historiador catalão Ferran Gallego, 56 anos, editado em Portugal pela Esfera dos Livros.
As 524 páginas iniciam-se com a interrogação do escritor Thomas Mann durante uma palestra em outono de 1930 na sala Beethoven, Berlim. O que é que o nazismo tem a ver com a Alemanha?, perguntava ao auditório o Nobel da literatura, quando o Partido Nacional-Socialista já ameaçava a república de Weimar.
Para Gallego, este era um partido nazi “congruente”, a afirmar-se num contexto de crise da sociedade liberal e da civilização europeia pós I Guerra Mundial. Um fenómeno complexo, heterogéneo, plural e que, por isso, conseguiu mobilizar milhões de seres humanos e se inseriu na modernidade.
“Essa complexidade permite abandonar a ideia de um grupo de loucos, de seres patológicos que tomaram o poder. A forma de modernidade escolhida pelo nazismo é uma patologia, mas os indivíduos são totalmente sãos”, referiu Ferran Gallego em entrevista à Lusa.
Autor de diversos ensaios sobre a questão do fascismo na Europa, optou por se concentrar nas “vidas concretas” de uma geração muito particular. “Quando começam a militar são pessoas com 20 e poucos anos… Himmler tinha 23 anos quando ocorreu o putsh de Munique, 33 anos quando o nazismo chegou ao poder e 45 anos quando se suicidou”, sublinha.
‘Os Homens do Führer’ é um detalhado percurso sobre os valores destes futuros dirigentes que nasceram na passagem para um século XX onde se formaram como indivíduos e se confrontaram com uma sociedade “que tinha perdido os critérios morais”, no rescaldo de um brutal conflito no qual onze milhões de europeus morreram nas trincheiras.
“A morte tornou-se um episódio quotidiano, a violência banalizou-se. A ideia que hoje podemos ter de violência política não é a ideia que podia ter uma pessoa em 1925. Porque quem vem de uma trincheira tem uma imagem da violência muito diferente”, afirma Ferran Gallego.
Homens que protagonizam um “exercício de depuração”, de “amputação, de “cura radical”, de “purga social” destinada a recuperar uma pátria que pudesse voltar a ser reconhecida, com energia e vida. E o nazismo será o veículo para preservar essa ideia, face aos poderosos Partido Social-Democrata e ao Partido Comunista.
Na perspetiva do professor da Universidade Autónoma de Barcelona, a falência do projeto liberal na Alemanha será determinante para a emergência de um sistema onde a integração da população passa a ser feita através da exclusão. Um novo nacionalismo que já não se baseia no otimismo da Revolução Francesa “mas antes no pessimismo de uma sociedade fracturada que pretendia recuperar uma nação que se tinha perdido”.
Em 1930, Thomas Mann já temia este novo fenómeno. A sua preocupação sobre o destino da Alemanha era também o grito de desespero pela perda de identidade da burguesia alemã, uma classe que tinha fundado o liberalismo, pregado a tolerância e erguido a Alemanha como uma nação de cultura. Revoltado, Mann acusava os nazis de apenas oferecerem “uma orgia de emoções anti-racionalistas”.
Mais que responder a uma pergunta, o escritor alemão denunciava um propósito: “Para Thomas Mann, os nazis em vez de oferecerem patriotismo ofereciam um tribalismo, uma espécie de ritual de sacrifício”. O alerta ecoou na noite de 17 de outubro de 1930 em Berlim. Mas já era demasiado tarde.